Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 01/03)

CIDADE DE ARDIR, 3º ANO DE INDEPENDÊNCIA.

Passos. Imensas paredes de pedras minuciosamente encaixadas retumbavam o arrastar de pés apressados por toda a extensão do corredor, perturbando a tenra noite que aninhava em seu manto o descanso dos que o mereciam. Passos. Passos precisos.

Encharcado de drama, não? Peço desculpas, mas sinto dificuldade em conter minha pena – e até divirto-me – enquanto imagino o velho e incólume Demóstenes abandonar sua serenidade para se atracar em peleja contra tempo e espaço para vencer a vastidão entre o saguão do Palácio de Ardir e os cômodos reais. A caravana vinda de Portouro chegara com notícias e estas em nada agradariam ao homem.

A noite era fria e o velho trouxe consigo todo o gélido incômodo do exterior para dentro dos aposentos do rei. Abriu a porta com cautela para evitar o ranger das dobradiças, mas a manteve escancarada. Deslizou até as janelas e, uma por uma, ergueu as folhas inferiores para dar passagem à densa massa fria que logo se espalhou por todo o piso e, aos poucos, se apoderou do parco calor ambiente. Em sua sabedoria, Demóstenes acreditava que despertar o rei pelas causas inerentes ao natural seria a forma mais adequada de arrancá-lo de seu sono, ainda mais ao considerar que o repentino açoite do frio seria acompanhado de informações vindas de uma região com tamanha instabilidade política.

Ao mínimo indício de consciência, alertou:

Senhor, é chegada a hora das providências!

O homem começou a levantar-se, e nada mais era do que apenas um homem, pensou o velho. Não havia nada de majestoso, nada de realeza ou de nobreza. Com remelas esparramavam-se pelas pálpebras, o cabelo desgrenhado e movimento arrastados e letárgicos, ergueu-se da cama. Nada de esplêndido. Era homem como qualquer outro, exceto por ser rei do Reino independente de Mansedes. Enquanto empertigava-se lentamente como se todo o continente devesse esperar, Demóstenes trazia-lhe uma bacia de prata para a higiene do despertar. Com os pés, braços e rosto lavados, e trajado com finos tecidos trabalhados em fios de ouro, agora o régio ser erguera-se para o dia. Dirigia um olhar de respeito ao homem a sua frente, o mesmo olhar dirigido a um pai. O outro recebeu o olhar com uma mesura singela, mas em seus pensamentos, a pessoa vestida como rei ainda era homem. Homem comum!

Demóstenes, o primeiro de Ardir, chegara ao reino de Mansedes havia poucos anos, mesmo que, para Ughar Uhran, parecesse que ele já se fazia presente desde sua infância. Aparecera como um viajante às portas da capital, mas não como um maltrapilho qualquer, sujo e cansado das estradas. Surgira com pele clara de um banho perfumado e com o mesmo manto bem alinhado ao corpo. Apresentava uma proposta. Não. Uma salvação.

– Deixe-me a par – irrompeu Ughar de seus pensamentos enquanto voltavam pelo corredor de onde, pouco antes, Demóstenes viera. Andaram a passos apressados o que parecera horas: imaginem, leitores, qual rei gostaria de ser dragado de seu leito aquecido pelo corpo de sua senhora para resolver qualquer assunto que fosse.

No corredor, um brilho fosco pulsava oriundo do tremular das velas estáticas nos castiçais bem distribuídos ao longo do caminho. Repetia-se sempre a mesma sequência. Três castiçais, uma armadura bem polida. Três castiçais, um enorme escudo com o brasão da família. Três castiçais, uma armadura. Acredito que o rei tenha um tanto de respeito pelo Vossa Digníssima, pois se fosse por mim – e que as senhoras me perdoem – essas estátuas já teriam virado belas dançarinas seminuas (ou até mesmo nuas) há muito tempo.

Justo de sua parte, nobre autor” teria pensado o indecente leitor; mas não é para isto que cá estamos e, por respeito às senhoras com as quais já me desculpei, voltemos ao desenlace:

– Quanto a Vossa recente decisão – apressou-se Demóstenes em tom taciturno – temo informá-lo que já houve repercussões.

– Algo diferente do que esperávamos? – questionou sem demonstrar preocupação.

– Condril posicionou tropas em seu lado da margem do Rio dos Deuses.

Atravessaram o portal de pedra, recebidos pela fria brisa matinal da Mata Escura. O céu apresentava-se em cores líquidas e tons que se mesclavam acima de suas cabeças. Sublime. Os tons sombrios, como a própria floresta à esquerda, eram engolidos pelo suave avanço das cores leitosas vindas do leste reforçadas pelo mágico brilhar dos milhares de pontos luminosos da Costa dos Mil Faróis. Evento este que dera nome à cordilheira que se projetava em toda região norte do reino. O local transmitia uma sensação de paz que acalmava a alma, principalmente nos momentos que demarcavam a deslumbrante disputa entre o dia e a noite.

Eram o lugar e o momento ideais para reuniões estratégicas; todos os sentimentos acalmavam-se perante as bênçãos de Ardir. Outro sábio conselho soprado por Demóstenes aos ouvidos de Ughar.

Uma mesa foi posta no centro da grande varanda de pedra e, em volta dela, já estavam os três convivas à espera de seu Regente. Servidos à mesa: sucos, frutas, pão preto, queijos e vinhos. Todos intocados.

– Bom encontrá-los tão dispostos, companheiros – cumprimentou Ughar. – Por favor, sentem-se.

Sentaram-se.

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Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 01/03)

9 comentários sobre “Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 01/03)

    1. Uai, que que tem lá nas colinas?
      Escrever é um eterno exercício, tudo questão de prática pra chegar na medida certa. Eu ainda acho que sou muito enfadonho e tenho que tirar muito excesso dos detalhes. Assim como praticar me ajuda a reduzir a prolixidade, se você quiser focar nos detalhes, será só questão de praticar, praticar e praticar.
      Eu gosto muito do seu estilo. É dinâmico!

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      1. Correr para as colinas é o que se sempre faz quando quer se salvar de algo :p

        E, quanto ao meu dinamismo. Às vezes é dinâmico demais! No ‘original’ (leia: primeira vez que escrevi), as partes 1 a 5 do prólogo eram menos de uma página. 🙂

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      2. :c Meus pêsames.
        Pelo menos assim você já tem uma boa ideia de como termina tudo 🙂

        No meu caso eu só tenho inícios, introduções e apresentações escritos. Ou seja, eu “não sei” como vai terminar. No entanto eu tenho uma série de pontos fixos mentais de coisas que vão acontecer. Aí eu me ponho no lugar da personagem e escrevo o que ela faria.

        Agora só na ansiosidade de ler o próximo texto!!!

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      3. Acho muito complicado pensar como a personagem. Eu tenho uma dificuldade sem fim de escrever, você não tem idéia. Sinto como se eu fosse muito linear, por isso, dento do meu roteiro eu abro vários pontos e vou percorrendo os caminhos para evitar previsibilidades.
        Eu já estou ansioso mesmo para sexta feira!

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