Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 02/03) Continuação

– Obrigado Demóstenes! – Os olhares voltaram-se ao rei. – Gerard, pelo que entendo, há dois pontos de possíveis ataques nos arredores do porto. Temos contingente suficiente na região para guarnecer a defesa nos limites do muro?

– Existe um soldado para cada operário, Vossa Realeza, em um total de cinquenta homens na ponta norte e mais cinquenta ao sul, e também temos a milícia da cidade. Ainda que desloquemos os batalhões das outras vilas e cidades em obras, não teremos contingente suficiente para uma batalha. Além de deixa-las desprotegidas. – A obra do Grande Muro foi idealizada em sete empreitadas distintas a fim de diminuir o tempo de construção e finalizar o projeto o quanto antes. As cidades escolhidas como pontos estratégicos representam o ponto de partida de cada uma das empreitadas e, a partir delas, cada grupo construtor se divide em dois. Um sobe a norte e outro rumo em direção contrária, ao sul, no caso de Portouro e Trisólis que se localizam na fronteira Oeste do reino. Em Quendime, Aruan, Silveiras e Porto do Cabo, que fazem fronteira ao sul, a expansão se dá de lesta a oeste a partir do centro das cidades.

– Vossa Majestade Real, se me for concebido o direito da palavra. – Apresentava-se com insegurança o último dos convivas. – Faço-me presente como voz de O Honorável Marlo Gulbak, Conde de Portouro.

Cletus Styr vestia-se como duque, com roupas espalhafatosas e bufantes; portava-se como nobre, garboso, cheio de si e entupido de melindres. Fedia como um cavalo. Todos já esperavam pela enfadonha apresentação repetida por inúmeras vezes sem fugir de seu próprio protocolo. Representava o senhor de Portouro que, devido a um aleijão, encontrava-se imóvel em seus aposentos havia, pelo menos, uma década.

– O Conde cumprimenta Vossa Magnificência e Vossa Beatitude, Demóstenes, o Primeiro de Ardir, pela saudável recuperação do jovem, Sua Alteza Real, Ughar Uhran II – com um menear de cabeça o rei faz com que o interlocutor apresse-se. – É de conhecimento de todos que Portouro destaca-se em nosso reino como uma das cidades mais importantes, se não a mais, para a garantia da integridade da estrutura comercial de Mansedes.

– Pelas minhas orelhas, Cletus, já perdemos a guerra que ainda nem começou com tanto polimento. Fale para que veio!

– É de minha responsabilidade, senhores, trazer-lhes o desejo de Vossa Graça, Marlo Gulbak, de que a segurança de Portouro seja tratada com inegáveis urgência e prioridade, mesmo que seja necessário desguarnecermos vilas e cidades bases dos outros focos de nossa magnífica obra.

Ughar recostou-se. Demóstenes manteve-se em pé ao seu lado. Gerar meneava a cabeça em negação. Todos sabiam que, de todas as cidades, Portouro era a de maior importância para a manutenção comercial do reino. Localizava-se no entroncamento do Rio dos Deuses, que dividia a terra entre Condril e Mansedes; o rio era veículo transportador da extração de minério da Costa dos Mil Faróis até Porto do Cabo e as cargas percorridas por ele são desviadas por operadores a postos no entroncamento a fim de evitar que seguissem pela ramificação contrária. E Darvi Blake, surpreendendo pela segunda vez, posicionou-se indiferente às questões comerciais:

– Bem sei, como meus homens também sabem, o que é ser observado pelo inimigo mesmo com uma tropa destinada à nossa defesa. Desproteger os outros seis pontos de obra só tornarão os trabalhadores mais inseguros, ainda mais, quando a ameaça de Condril chegar aos seus ouvidos. Desertarão sem pensar, senhores.

– Peço que reconsiderem, nobres colegas. Não haverá ameaças às outras vilas, senhores. Não há crime em cercar-se! – ignorante à opinião e presença de Blake, Cletus dirigiu-se aos outros três sem desviar o olhar.

– Caríssimo Cletus, como já relatei, setecentos guerreiros não farão frente ao batalhão posicionado na ponta Norte de sua estimada cidade. Deixe que estratégias militares sejam traçadas por homens, rapaz.

– É preciso homens corajosos para discutir a segurança de um reino – rilhou os dentes o Porta-voz, deixando toda a pompa de lado.

– E o que sabe sobre coragem, poltrão? Oh, perdoe-me, é preciso muita coragem para apresentar-se com modos tão efeminados perante homens de valores e não temer ser açoitado. Ou, mais coragem ainda para aguenta uma noite de lascívias embaixo de seu pangaré. – O general apertava o braço de sua cadeira para conter sua fúria.

O caos instaurou-se na mesa. Vozes alteraram-se, ameaças foram disparadas, deu-se início a uma peleja apartada por Blake, até que Ughar Uhran impôs sua esmagadora vontade com uma palavra que se sobressaiu a todas as vozes:

– Basta – seu tom era calmo, mas todos puderam ouvir, e ninguém pôde ignorar – Gerard e Cletus, esquecerei as ofensas proferidas em minha presença. Tenham em mente que, na próxima fitada inadvertida, retirarei títulos e terras. Em caso de escárnio, cortarei pessoalmente as línguas. Se houver ofensa, será o cadafalso o destino de vocês. Seja vítima ou agressor. – Houve uma longa pausa para que todos absorvessem as advertências e, então, o rei prosseguiu como se não tivesse havido distúrbio algum na reunião. – Gerard, comunique aos comandantes de cada batalhão que deverão destacar os melhores batedores para que verifiquem, durante as noites, se há outros acampamentos inimigos na zona de ameaça de nossas obras, para que não sejamos pegos desprevenidos em uma defesa suicida. Cletus, informe ao Conde Marlo que, assim que soubermos a extensão da ameaça, proveremos tropas suficientes para a segurança de todos em Portouro.

Demóstenes apreciava a postura de seu rei enquanto meneava a cabeça em concordância com suas advertências e decisões. Certamente, lembrava-se de seus pensamentos no início daquela manhã: Ughar poderia até ser um homem comum, mas sabia impor-se como um verdadeiro monarca. Após a conclusão do raciocínio do rei, Demóstenes vestiu-se de um sorriso fraterno e advertiu a todos.

– Não podemos nos esquecer de Mesuran, caros colegas. Mesmo que subir muros em proteção não seja crime, ao virarmos as costas para cidades fronteiriças, estaremos sujeitos às influências culturais e à fragilização dos propósitos de Ardir. Existem outras opções de recrutamento, senhores.

– Demóstenes tem razão no que diz, – concordou Gerard – completa-se três anos desde o início da obrigatoriedade militar. Nas principais cidades e aqui mesmo na capital, recrutamos meninos ainda verdes que hoje já se encontram prontos para encarar qualquer batalha e, a cada ano, recruta-se mais e mais desses promissores soldados.

Mesuran fora o estopim que dera início ao conceito do plano diretor de Demóstenes. Era a maior das cidades que fazia fronteira com Cágeni e, naturalmente, sua maior parceira comercial antes da independência de Mansedes. Mesuran trazia consigo a cultura do continente enraizada em seu povo, em suas praças, vielas, em cada casa, em cada criança e em cada cantiga. Negara-se com veemência a aceitar a modificação cultural imposta por Ughar e, em antecipação de qualquer providência disciplinar, solicitara a Cágeni proteção militar em troca do fornecimento dedicado de grãos produzidos em suas terras. Com isto, Mesuran integrou-se ao reino de Cágeni desfalcando Mansedes em uma quantia monetária considerável no balanço final das estações. Em um conselho de urgência, Ughar apresentara a todos os membros e representantes das principais cidades do reino o Plano Diretor de Ascensão de Mansedes prontamente elaborado por Demóstenes. O Plano previa a construção do Grande Muro, a instrução militar em massa para homens formados que completassem quartoze anos durante a estação, a alfabetização de toda a população e a disseminação da palavra de Ardir em cada cidade, vila ou vilarejo pertencentes ao Reino Independente de Mansedes.

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