Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 02/03)

Com um gesto, o anfitrião incentivou os convidados a iniciar o desjejum. Apreensivos, serviam-se vagarosamente com uvas, retirando fruto por fruto dos cachos, ou de pequenos pedaços de queijo e nacos de pão acompanhados por breves tragos do doce vinho de Vinícola Sul.

Tensos, não comiam por fome, gula ou etiqueta. Comiam por ansiedade, para ganhar tempo e para, individualmente, evitar ser o primeiro a dar as indesejadas informações.

Entreolharam-se com desconforto enquanto mirados pelos olhos felinos do rei; em seu sangue, ele trazia a herança das tribos bárbaras que outrora vagavam pelo terreno árido da Costa dos Mil Faróis. A pele mais escura que a pele dos habitantes da capital, ombros largos e braços compridos capazes de alcançar qualquer inimigo sem que se aproximasse de sua zona de ameaça. Em seu rosto, características de predador. Olhos ameaçadoramente estreitos como um rasgo, com um misto entre bronze e ouro, atentos ao menor movimento. Orelhas curtas, queixo forte e um nariz reto e fino como em continuação de sua testa larga e proeminente. Aparentava estar constantemente com o cenho franzido, o que aumenta ainda mais a sensação de fúria. Um homem a temer, não fosse a cordialidade introduzida à família ao longo dos anos de diplomacia. Bárbaro por natureza, lorde por tradição.

– Vossa Majestade – iniciara Darvi Blake para a surpresa de todos – Temo por meus homens e também pelo povo de Portouro. Há, pelo menos, um bom milhar de soldados acampados a um distância coberta pelos olhos. Meus homens dormem e acordam com todos os olhos do exército neles.

A voz do mestre de obras era trêmula e carregada de insegurança. Suas palavras trouxeram desconforto real aos presentes. O rei trocou seu peso de um lado para o outro na cadeira. Com os olhos perdidos à frente, apoiou-se sobre os cotovelos e dirigiu-se ao homem:

– Diga-me, senhor Blake, qual é o avanço do muro neste momento?

Diferente dos outros dois convidados, Darvi Blake não possuía títulos, terras ou qualquer elevação social. Convocado para assumir uma das sete empreitadas na construção do Grande Muro de Contenção, Blake conhecia cada detalhe de sua obra como um pai que decifra um filho apenas com o olhar. Fora chamado por um motivo óbvio: confirmar a real situação da construção.

– Ao norte, estamos na metade do caminho para Mata Escura. Ao sul, cobrimos a mesma distância, o que se aproxima de um quarto da viagem até Trisólis. – Respondeu o perito mestre de obras com firmeza.

O Grande Muro de Contenção de invasão bélico-cultural estrangeira compunha parte do plano diretor da ascensão de Mansedes idealizado por Demóstenes após a aceitação de Ardir por Ughar. As cidades de Portouro, Trisólis, Quendime, Aruan, Silveiras e Porto do Cabo tornaram-se pontos estratégicos na defesa do reino por se situarem nas fronteiras com os reinos vizinhos Condril e Cágeni e por apresentarem o mesmo tempo de viagem entre uma cidade e outra, com partida a oeste em Portouro e contornar toda a extensão sul do reino até o litoral, a leste, em Porto do Cabo. Em cada uma dessas cidades foram investidos recursos em infraestrutura para receber e instalar os sete grupos empreiteiros e instalações militares para salvaguardar todos os envolvidos no projeto.

– Trisólis. – Considerou o rei. – E quanto ao muro vindo de lá? Suponho que mantenha contato com seu respectivo mestre de obras, correto?

– Sim, Vossa Mejestade, a equipe de Osmar mantém o mesmo ritmo que os meus homens; assim como em todas as outras obras e até mesmo em volta de Mesuran. Se me permite dizer, este projeto foi muito bem definido pelo senhor e por vosso conselho. Exceto por um detalhe. – O discurso de Blake minguara da euforia a uma gagueira temerosa.

Se todos já estavam pasmos com a coragem do velho construtor de conversar francamente com o rei, empertigaram-se em seus assentos com tamanha ousadia. Darvi Blake era o tipo de homem que se chamava chucro. Crescido em meio a obras e construções, não tinha estudos, não sabia ler e mal assinava o próprio nome. Porém, suas obras eram precisas, exatas, simétricas e seus cálculos impecáveis. Fora isto, o que poderia saber sobre estratégia de defesa?

– Ora, nobre companheiro – manifestara-se Gerard Thomp, mas logo calado com um aceno do rei que incentivava Blake, com o olhar, a continuar o raciocínio.

– Perdoe-me, Vossa Graça, não deveria ter falado além do que me foi perguntado.

– Não, por favor, eu insisto; gostaria de ouvir a sua opinião – diz Ughar ainda com a mão em diração a Gerard.

– Não há nada de errado com a construção, senhor. A divisão da obra é equilibrada e será concluída em tempo nunca visto neste continente. Uma obra sem igual. É só que… Subir muros às margens do lado de Condril? Não são nossas terras, sabe?

Não deve ter sido fácil para o velho Darvi. Ah, isso eu posso afirmar! Ser apenas um operário escrutinado por vorazes olhos indignados com a crítica que acabaram de receber – e imagino que a corte não deva ser muito tolerante com críticas – deve ter feito seu pescoço coçar, ainda mais com ajuda tão singela do General Gerard Thomp:

– Isso foi demais, homem. Como ousa questionar o projeto que impulsionará nosso reino à completa independência? Quem é você para duvidar das decisões do conselho de nosso senhor? Sabe que é este o trabalho que alimenta toda a sua família, que paga os estudos dos seus filhos e mantém sua esposa segura aqui na capital? – o general exaltou-se tentando conter o tom de voz, mas com os olhos quase saltados das órbitas e a veia do pescoço da espessura de uma zarabatana.

– Não se altere, por favor, caro general. O que nosso amigo diz é verdade. Todos nós negligenciamos a boa política quando iniciamos as obras do outro lado do rio, por menor que seja este trecho. – Demóstenes posicionara-se pela primeira vez desde que a reunião começara. Sua voz sempre serene acalmou aos poucos o atarracado Gerard.

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