Capítulo 01: Escolhas e Consequências (Parte 03/03) Conclusão

Enquanto os demais discutiam o caso Mesuran, Darvi Blake, o mestre de obras, absorvia cada palavra com perplexidade. Falavam sobre movimentação de tropas e seus custos, sobre posicionamento em campo aberto, fabricação e transporte de armamento. Calculavam o tempo de recuperação da produção agrícola que seria destinada para alimentação de cavalos e soldados. Estimavam perda de lucro com proibição de comércio com os reinos vizinhos, enquanto já havia planos de retorno (a seu ver, milagrosos) com o estímulo ao comércio interno. Havia algo de errado com aqueles homens, pensava. Pensou alto demais.

– Desculpe – o rei tirara-o de seus devaneios – gostaria de falar algo?

– Tenho permissão para falar livremente, Vossa Majestade?

– Faço gosto de ouvi-lo, mestre Blake.

– Os companheiros falam de guerra com facilidade e eu ouço sobre vidas perdidas com horror. Decidem pelo destino do reino sem, ao menos, terem ideia de que também estão decidindo pela vida de cada uma das crianças, mandado-as para batalhas de uma guerra que ainda nem foi declarada. Impõem o sofrimento às mães destes pequenos. Determinam para quem fazendeiros devem vender suas verduras e legumes ou não. E todas essas decisões foram tomadas sem uma tentativa de conversa com Condril. – Discorreu com o mesmo fulgor de quando, outrora, relatava sobre o avanço das obras. Protestava em defesa de seus homens, falava com a voz do povo. Agarrara-se àquela oportunidade de levar medos, receios e a visão de seus iguais aos homens que passaram a escutá-lo, agora, como a um igual.

Demóstenes, que ouvia tudo com um sorriso fraternal, levantou-se e foi em direção ao homem que concluía, com exaustão radiante, seus pensamentos.

– É com grande prazer que recebemos a visão de um homem do povo, mestre Blake…

Aproximou-se  de Darvi Blake retirando a túnica.

– Mas devo salientar que, diferente do que pensa, a falta de tentativa de diálogo com Benson Filnach dá-se, exclusivamente, por já conhecermos sua posição quanto ao assunto…

Aproveitou o assento vazio ao lado do mestre de obras para pendurar o manto…

– No passado, quando solicitamos sua ajuda no caso Mesuran, Benson recusou-se veementemente e ainda forneceu todo o apoio financeiro e militar a Cágeni – sentou-se com o braço apoiado sob a mesa e com sua face sob a forma de uma máscara sorridente olhando fixamente para Blake.

– O que este homem quer, Darvi, é guerra! Basta-nos saber se o motivo é retaliação, imposição cultural ou uma oportunidade para tomar Portouro – completou Ughar.

– Benson defende a latência cultural e religiosa; condena Mansedes por virar as costas aos costumes antigos do continente – concluiu Demóstenes ainda mantendo a face congelada.

– Neste ponto em que me apoio, Vossa Beatitude: as decisões que aqui são tomadas refletem na vida de cada habitante de Mansedes. Nossos filhos são levados para outras cidades para comporem o exército do reino. Maridos foram levados para as fronteiras em uma obra sem precedentes. Todos fomos doutrinados perante os dogmas de Ardir. Não nos foi dado o direito de escolher onde trabalhar, de que forma educar nossos filhos e, muito menos…

Darvi Blake estancou o raciocínio tão repentinamente quanto dera início à reunião momentos antes. Todos observavam incrédulos enquanto Demóstenes forçava algo em suas mãos contra o ventre do mestre obras com solavancos cada vez mais intensos.

– Conclua, homem. Conte-nos como não lhe foi dada escolha a religião. – Demóstenes escancarava seu sorriso fraternal em enormes dentes insanos. – Veja: agora, você tem a escolha. Nosso louvado Ardir é misericordioso. Escolha viver em Sua presença e seja recebido de braços abertos, ou, caminhe para o reino de seus antigos deuses e sinta toda a fúria de entidades renegadas – retirava vagarosamente a lâmina do macio estômago do construtor e, sorria ainda mais, enquanto via o fio de vida se esvair dos olhos cansados do mais sábio homem que sentara àquela mesa. Uma ameaça a menos!

Impassível como a ignorância, Demóstenes guardou a lâmina dentro da faixa que circundava sua cintura e tornou a cobrir-se com sua túnica intacta. Sereno, como sempre, tornou a discursar:

– O homem mais uma vez estava certo, Vossa Majestade. Todas as escolhas deverão repercutir na vida de cada um de nós para que Mansedes prospere hoje e nos dias que virão. Lembre-se: a primeira vida tocada por Ardir foi a de vosso próprio filho, portanto, vossa dívida será eterna perante a benevolência de nosso amado e verdadeiro Senhor.

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Capítulo 01: Escolhas e Consequências (Parte 03/03) Conclusão

5 comentários sobre “Capítulo 01: Escolhas e Consequências (Parte 03/03) Conclusão

      1. Eu diria que foi mais ou menos xD A cena foi descrita de forma muito bacana, mas…

        Lição aprendida com tio Martin: se for matar um personagem, faça com que o leitor goste dele antes, ou seja, desenvolva um pouco mais o personagem. A morte fica mais chocante, emocionante e revoltante. ‘-‘

        Curtido por 1 pessoa

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