Projeto#462 – Exercício#2

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Esta semana foi uma semana atípica conforme minhas Explicações de Segunda, mas, depois de deixá-los sem as publicações referentes à criação de Personagens e Locais, não poderia falhar logo na segunda semana após o início do Projeto #462. Aliás, a publicação da semana passada foi o recorde de visualizações desde que iniciei o Onírico Autor. Muito obrigado a todos pelo reconhecimento e pelas visitas.

A proposta do Bagunça Perfeita para o Exercício#2 mexeu muito comigo. Sim, achei complicado demais elaborar um texto a partir da última frase, ainda mais por se tratar de uma frase que abre tantas possibilidades. Fiquei perdido com o mar de opções – e minha esposa sabe muito bem como odeio escolher o que melhor me agrada (tudo, tudo, tudo me apraz em certo ponto).

Pois bem, a proposta era:

Escreva uma história que termine com a frase: “e esse é o quarto / espaço onde isso aconteceu.”

E esta é a história:

Projeto #462 – Exercício #2

O cursor piscava com intermitência na tela. Piscava.

Alberto o encarava com os olhos vidrados. Estático.

O cursor piscava.

Alberto o encarava.

As ideias insistiam em fugir-lhe da mente. A sensação Alberto já conhecia: desespero, seu maior medo; era o escárnio do cursor, o maldito zombeteiro.

Já não sabia se era noite ou dia, conhecia apenas o brilho do monitor. Todo o resto fora drenado pelo escuro.

Imerso naquela constante binária entre o sumir e o aparecer, sentiu seu estômago subir agarrado pelo esôfago e a visão tombar de um solavanco só até seus pés. Seu cérebro pulsava.

Vertigem.

Era o estágio avançado do ócio intelectual. Mumificara seu corpo em frente ao computador na esperança de uma invasão de conhecimentos e aplicações inovadoras. Não comeu, mal bebeu e não se levantou. Não havia necessidade. Tudo o que importava era o criar. Agora, mal respirava. Talvez tivesse sido isso. Talvez, por isso, tudo rodava ao seu redor e, ao centro da vista, o cursor piscava.

Alucinou pelo o que pareceu horas e, tão rápido quanto começou, tudo parou.

Ofegava desnorteado e seu pulso retumbava em seus ouvidos. Fora abduzido pela ausência de consciência e jogado de volta pela explosão da emoção.

Estava em pé em frente ao computador. Mas quando levantara?

Sua visão, aguçada, agora lhe mostrava o que antes ignorava. A cama a sua direita, cortinas acetinadas, papel de parede mofado, um espelho de moldura antiga, dois móveis de cabeceira e a porta aberta que dava para o banheiro. Um quarto de hotel.

Ainda ofegante, acendeu a luz do quarto.

Os olhos doeram para se acostumar. Piscou.

Alberto encarou o quarto com os olhos vidrados. Estático.

Olhou do computador, de onde ainda pulsava o cursor, à cortina acetinada que agora ostentava viscosas nódoas vermelhas que ainda escorriam lentamente pelo liso tecido. As roupas de cama estavam espalhadas pelo chão do quarto e também possuíam manchas frescas de um vermelho forte. Tudo estava revirado. O colchão rasgado, as cômodas tombadas e havia até pedaços do espelho quebrado no chão. Somente o computador encontrava-se intacto.

Alberto conteve as entranhas. Esmoreceu sob os joelhos e vomitou.

Ao erguer a cabeça, pôde perceber que um rastro de sangue – agora tinha certeza que o vermelho se tratava de sangue – se arrastava até o banheiro. Trêmulo, engatinhou moroso acompanhando aquele rastro abjeto.

O banheiro permanecia escuro. Alberto se pôs de pé escorando no batente da porta e a mão seguiu para o interruptor. Fechou os olhos, mas de alguma forma sabia que encontraria ao abrí-los.

Nada.

Não havia corpo no chão, mas o rastro ainda levava até a banheira. Alberto cortou o banheiro em dois passos e puxou a cortina com força. Foi preciso pelo menos três puxadas para arrancá-la por completo. E, mais uma vez, nada. Dentro da banheira não havia corpo e muito menos sangue. Porém, Alberto percebeu que agora havia sangue na cortina, onde, antes, estava limpa. Olhou suas mãos e tudo percebeu.

Caminhou passos certos até a primeira cômoda e a colocou no lugar. Pegou o telefone do chão e sentou-se na cama.

Discou.

Esperou.

Uma voz dura respondeu “Octogésimo nono DP. Sargente Müller falando!”.

Alberto tentou manter a voz calma e denunciou todos os detalhes do caso de homicídio ao sargento de plantão enquanto enfaixava seus braços. Ao fim da ligação, desligou, posicionou o telefone sob a cômoda e dirigiu-se à porta do quarto.

Respirou fundo e sorriu. Agora compreendia. Tudo o que importava era o sentir. Viver.

Na tela do computador, o cursor ainda piscava na página em branco.

Na parede, podia-se ler em letras de um vermelho escorrido:

“E esse foi o quarto onde isso aconteceu.”

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