Capítulo 01: Escolhas e Consequências (Parte 03/03) Conclusão

Enquanto os demais discutiam o caso Mesuran, Darvi Blake, o mestre de obras, absorvia cada palavra com perplexidade. Falavam sobre movimentação de tropas e seus custos, sobre posicionamento em campo aberto, fabricação e transporte de armamento. Calculavam o tempo de recuperação da produção agrícola que seria destinada para alimentação de cavalos e soldados. Estimavam perda de lucro com proibição de comércio com os reinos vizinhos, enquanto já havia planos de retorno (a seu ver, milagrosos) com o estímulo ao comércio interno. Havia algo de errado com aqueles homens, pensava. Pensou alto demais.

– Desculpe – o rei tirara-o de seus devaneios – gostaria de falar algo?

– Tenho permissão para falar livremente, Vossa Majestade?

– Faço gosto de ouvi-lo, mestre Blake.

– Os companheiros falam de guerra com facilidade e eu ouço sobre vidas perdidas com horror. Decidem pelo destino do reino sem, ao menos, terem ideia de que também estão decidindo pela vida de cada uma das crianças, mandado-as para batalhas de uma guerra que ainda nem foi declarada. Impõem o sofrimento às mães destes pequenos. Determinam para quem fazendeiros devem vender suas verduras e legumes ou não. E todas essas decisões foram tomadas sem uma tentativa de conversa com Condril. – Discorreu com o mesmo fulgor de quando, outrora, relatava sobre o avanço das obras. Protestava em defesa de seus homens, falava com a voz do povo. Agarrara-se àquela oportunidade de levar medos, receios e a visão de seus iguais aos homens que passaram a escutá-lo, agora, como a um igual.

Demóstenes, que ouvia tudo com um sorriso fraternal, levantou-se e foi em direção ao homem que concluía, com exaustão radiante, seus pensamentos.

– É com grande prazer que recebemos a visão de um homem do povo, mestre Blake…

Aproximou-se  de Darvi Blake retirando a túnica.

– Mas devo salientar que, diferente do que pensa, a falta de tentativa de diálogo com Benson Filnach dá-se, exclusivamente, por já conhecermos sua posição quanto ao assunto…

Aproveitou o assento vazio ao lado do mestre de obras para pendurar o manto…

– No passado, quando solicitamos sua ajuda no caso Mesuran, Benson recusou-se veementemente e ainda forneceu todo o apoio financeiro e militar a Cágeni – sentou-se com o braço apoiado sob a mesa e com sua face sob a forma de uma máscara sorridente olhando fixamente para Blake.

– O que este homem quer, Darvi, é guerra! Basta-nos saber se o motivo é retaliação, imposição cultural ou uma oportunidade para tomar Portouro – completou Ughar.

– Benson defende a latência cultural e religiosa; condena Mansedes por virar as costas aos costumes antigos do continente – concluiu Demóstenes ainda mantendo a face congelada.

– Neste ponto em que me apoio, Vossa Beatitude: as decisões que aqui são tomadas refletem na vida de cada habitante de Mansedes. Nossos filhos são levados para outras cidades para comporem o exército do reino. Maridos foram levados para as fronteiras em uma obra sem precedentes. Todos fomos doutrinados perante os dogmas de Ardir. Não nos foi dado o direito de escolher onde trabalhar, de que forma educar nossos filhos e, muito menos…

Darvi Blake estancou o raciocínio tão repentinamente quanto dera início à reunião momentos antes. Todos observavam incrédulos enquanto Demóstenes forçava algo em suas mãos contra o ventre do mestre obras com solavancos cada vez mais intensos.

– Conclua, homem. Conte-nos como não lhe foi dada escolha a religião. – Demóstenes escancarava seu sorriso fraternal em enormes dentes insanos. – Veja: agora, você tem a escolha. Nosso louvado Ardir é misericordioso. Escolha viver em Sua presença e seja recebido de braços abertos, ou, caminhe para o reino de seus antigos deuses e sinta toda a fúria de entidades renegadas – retirava vagarosamente a lâmina do macio estômago do construtor e, sorria ainda mais, enquanto via o fio de vida se esvair dos olhos cansados do mais sábio homem que sentara àquela mesa. Uma ameaça a menos!

Impassível como a ignorância, Demóstenes guardou a lâmina dentro da faixa que circundava sua cintura e tornou a cobrir-se com sua túnica intacta. Sereno, como sempre, tornou a discursar:

– O homem mais uma vez estava certo, Vossa Majestade. Todas as escolhas deverão repercutir na vida de cada um de nós para que Mansedes prospere hoje e nos dias que virão. Lembre-se: a primeira vida tocada por Ardir foi a de vosso próprio filho, portanto, vossa dívida será eterna perante a benevolência de nosso amado e verdadeiro Senhor.

Capítulo 01: Escolhas e Consequências (Parte 03/03) Conclusão

Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 02/03) Continuação

– Obrigado Demóstenes! – Os olhares voltaram-se ao rei. – Gerard, pelo que entendo, há dois pontos de possíveis ataques nos arredores do porto. Temos contingente suficiente na região para guarnecer a defesa nos limites do muro?

– Existe um soldado para cada operário, Vossa Realeza, em um total de cinquenta homens na ponta norte e mais cinquenta ao sul, e também temos a milícia da cidade. Ainda que desloquemos os batalhões das outras vilas e cidades em obras, não teremos contingente suficiente para uma batalha. Além de deixa-las desprotegidas. – A obra do Grande Muro foi idealizada em sete empreitadas distintas a fim de diminuir o tempo de construção e finalizar o projeto o quanto antes. As cidades escolhidas como pontos estratégicos representam o ponto de partida de cada uma das empreitadas e, a partir delas, cada grupo construtor se divide em dois. Um sobe a norte e outro rumo em direção contrária, ao sul, no caso de Portouro e Trisólis que se localizam na fronteira Oeste do reino. Em Quendime, Aruan, Silveiras e Porto do Cabo, que fazem fronteira ao sul, a expansão se dá de lesta a oeste a partir do centro das cidades.

– Vossa Majestade Real, se me for concebido o direito da palavra. – Apresentava-se com insegurança o último dos convivas. – Faço-me presente como voz de O Honorável Marlo Gulbak, Conde de Portouro.

Cletus Styr vestia-se como duque, com roupas espalhafatosas e bufantes; portava-se como nobre, garboso, cheio de si e entupido de melindres. Fedia como um cavalo. Todos já esperavam pela enfadonha apresentação repetida por inúmeras vezes sem fugir de seu próprio protocolo. Representava o senhor de Portouro que, devido a um aleijão, encontrava-se imóvel em seus aposentos havia, pelo menos, uma década.

– O Conde cumprimenta Vossa Magnificência e Vossa Beatitude, Demóstenes, o Primeiro de Ardir, pela saudável recuperação do jovem, Sua Alteza Real, Ughar Uhran II – com um menear de cabeça o rei faz com que o interlocutor apresse-se. – É de conhecimento de todos que Portouro destaca-se em nosso reino como uma das cidades mais importantes, se não a mais, para a garantia da integridade da estrutura comercial de Mansedes.

– Pelas minhas orelhas, Cletus, já perdemos a guerra que ainda nem começou com tanto polimento. Fale para que veio!

– É de minha responsabilidade, senhores, trazer-lhes o desejo de Vossa Graça, Marlo Gulbak, de que a segurança de Portouro seja tratada com inegáveis urgência e prioridade, mesmo que seja necessário desguarnecermos vilas e cidades bases dos outros focos de nossa magnífica obra.

Ughar recostou-se. Demóstenes manteve-se em pé ao seu lado. Gerar meneava a cabeça em negação. Todos sabiam que, de todas as cidades, Portouro era a de maior importância para a manutenção comercial do reino. Localizava-se no entroncamento do Rio dos Deuses, que dividia a terra entre Condril e Mansedes; o rio era veículo transportador da extração de minério da Costa dos Mil Faróis até Porto do Cabo e as cargas percorridas por ele são desviadas por operadores a postos no entroncamento a fim de evitar que seguissem pela ramificação contrária. E Darvi Blake, surpreendendo pela segunda vez, posicionou-se indiferente às questões comerciais:

– Bem sei, como meus homens também sabem, o que é ser observado pelo inimigo mesmo com uma tropa destinada à nossa defesa. Desproteger os outros seis pontos de obra só tornarão os trabalhadores mais inseguros, ainda mais, quando a ameaça de Condril chegar aos seus ouvidos. Desertarão sem pensar, senhores.

– Peço que reconsiderem, nobres colegas. Não haverá ameaças às outras vilas, senhores. Não há crime em cercar-se! – ignorante à opinião e presença de Blake, Cletus dirigiu-se aos outros três sem desviar o olhar.

– Caríssimo Cletus, como já relatei, setecentos guerreiros não farão frente ao batalhão posicionado na ponta Norte de sua estimada cidade. Deixe que estratégias militares sejam traçadas por homens, rapaz.

– É preciso homens corajosos para discutir a segurança de um reino – rilhou os dentes o Porta-voz, deixando toda a pompa de lado.

– E o que sabe sobre coragem, poltrão? Oh, perdoe-me, é preciso muita coragem para apresentar-se com modos tão efeminados perante homens de valores e não temer ser açoitado. Ou, mais coragem ainda para aguenta uma noite de lascívias embaixo de seu pangaré. – O general apertava o braço de sua cadeira para conter sua fúria.

O caos instaurou-se na mesa. Vozes alteraram-se, ameaças foram disparadas, deu-se início a uma peleja apartada por Blake, até que Ughar Uhran impôs sua esmagadora vontade com uma palavra que se sobressaiu a todas as vozes:

– Basta – seu tom era calmo, mas todos puderam ouvir, e ninguém pôde ignorar – Gerard e Cletus, esquecerei as ofensas proferidas em minha presença. Tenham em mente que, na próxima fitada inadvertida, retirarei títulos e terras. Em caso de escárnio, cortarei pessoalmente as línguas. Se houver ofensa, será o cadafalso o destino de vocês. Seja vítima ou agressor. – Houve uma longa pausa para que todos absorvessem as advertências e, então, o rei prosseguiu como se não tivesse havido distúrbio algum na reunião. – Gerard, comunique aos comandantes de cada batalhão que deverão destacar os melhores batedores para que verifiquem, durante as noites, se há outros acampamentos inimigos na zona de ameaça de nossas obras, para que não sejamos pegos desprevenidos em uma defesa suicida. Cletus, informe ao Conde Marlo que, assim que soubermos a extensão da ameaça, proveremos tropas suficientes para a segurança de todos em Portouro.

Demóstenes apreciava a postura de seu rei enquanto meneava a cabeça em concordância com suas advertências e decisões. Certamente, lembrava-se de seus pensamentos no início daquela manhã: Ughar poderia até ser um homem comum, mas sabia impor-se como um verdadeiro monarca. Após a conclusão do raciocínio do rei, Demóstenes vestiu-se de um sorriso fraterno e advertiu a todos.

– Não podemos nos esquecer de Mesuran, caros colegas. Mesmo que subir muros em proteção não seja crime, ao virarmos as costas para cidades fronteiriças, estaremos sujeitos às influências culturais e à fragilização dos propósitos de Ardir. Existem outras opções de recrutamento, senhores.

– Demóstenes tem razão no que diz, – concordou Gerard – completa-se três anos desde o início da obrigatoriedade militar. Nas principais cidades e aqui mesmo na capital, recrutamos meninos ainda verdes que hoje já se encontram prontos para encarar qualquer batalha e, a cada ano, recruta-se mais e mais desses promissores soldados.

Mesuran fora o estopim que dera início ao conceito do plano diretor de Demóstenes. Era a maior das cidades que fazia fronteira com Cágeni e, naturalmente, sua maior parceira comercial antes da independência de Mansedes. Mesuran trazia consigo a cultura do continente enraizada em seu povo, em suas praças, vielas, em cada casa, em cada criança e em cada cantiga. Negara-se com veemência a aceitar a modificação cultural imposta por Ughar e, em antecipação de qualquer providência disciplinar, solicitara a Cágeni proteção militar em troca do fornecimento dedicado de grãos produzidos em suas terras. Com isto, Mesuran integrou-se ao reino de Cágeni desfalcando Mansedes em uma quantia monetária considerável no balanço final das estações. Em um conselho de urgência, Ughar apresentara a todos os membros e representantes das principais cidades do reino o Plano Diretor de Ascensão de Mansedes prontamente elaborado por Demóstenes. O Plano previa a construção do Grande Muro, a instrução militar em massa para homens formados que completassem quartoze anos durante a estação, a alfabetização de toda a população e a disseminação da palavra de Ardir em cada cidade, vila ou vilarejo pertencentes ao Reino Independente de Mansedes.

Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 02/03) Continuação

Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 02/03)

Com um gesto, o anfitrião incentivou os convidados a iniciar o desjejum. Apreensivos, serviam-se vagarosamente com uvas, retirando fruto por fruto dos cachos, ou de pequenos pedaços de queijo e nacos de pão acompanhados por breves tragos do doce vinho de Vinícola Sul.

Tensos, não comiam por fome, gula ou etiqueta. Comiam por ansiedade, para ganhar tempo e para, individualmente, evitar ser o primeiro a dar as indesejadas informações.

Entreolharam-se com desconforto enquanto mirados pelos olhos felinos do rei; em seu sangue, ele trazia a herança das tribos bárbaras que outrora vagavam pelo terreno árido da Costa dos Mil Faróis. A pele mais escura que a pele dos habitantes da capital, ombros largos e braços compridos capazes de alcançar qualquer inimigo sem que se aproximasse de sua zona de ameaça. Em seu rosto, características de predador. Olhos ameaçadoramente estreitos como um rasgo, com um misto entre bronze e ouro, atentos ao menor movimento. Orelhas curtas, queixo forte e um nariz reto e fino como em continuação de sua testa larga e proeminente. Aparentava estar constantemente com o cenho franzido, o que aumenta ainda mais a sensação de fúria. Um homem a temer, não fosse a cordialidade introduzida à família ao longo dos anos de diplomacia. Bárbaro por natureza, lorde por tradição.

– Vossa Majestade – iniciara Darvi Blake para a surpresa de todos – Temo por meus homens e também pelo povo de Portouro. Há, pelo menos, um bom milhar de soldados acampados a um distância coberta pelos olhos. Meus homens dormem e acordam com todos os olhos do exército neles.

A voz do mestre de obras era trêmula e carregada de insegurança. Suas palavras trouxeram desconforto real aos presentes. O rei trocou seu peso de um lado para o outro na cadeira. Com os olhos perdidos à frente, apoiou-se sobre os cotovelos e dirigiu-se ao homem:

– Diga-me, senhor Blake, qual é o avanço do muro neste momento?

Diferente dos outros dois convidados, Darvi Blake não possuía títulos, terras ou qualquer elevação social. Convocado para assumir uma das sete empreitadas na construção do Grande Muro de Contenção, Blake conhecia cada detalhe de sua obra como um pai que decifra um filho apenas com o olhar. Fora chamado por um motivo óbvio: confirmar a real situação da construção.

– Ao norte, estamos na metade do caminho para Mata Escura. Ao sul, cobrimos a mesma distância, o que se aproxima de um quarto da viagem até Trisólis. – Respondeu o perito mestre de obras com firmeza.

O Grande Muro de Contenção de invasão bélico-cultural estrangeira compunha parte do plano diretor da ascensão de Mansedes idealizado por Demóstenes após a aceitação de Ardir por Ughar. As cidades de Portouro, Trisólis, Quendime, Aruan, Silveiras e Porto do Cabo tornaram-se pontos estratégicos na defesa do reino por se situarem nas fronteiras com os reinos vizinhos Condril e Cágeni e por apresentarem o mesmo tempo de viagem entre uma cidade e outra, com partida a oeste em Portouro e contornar toda a extensão sul do reino até o litoral, a leste, em Porto do Cabo. Em cada uma dessas cidades foram investidos recursos em infraestrutura para receber e instalar os sete grupos empreiteiros e instalações militares para salvaguardar todos os envolvidos no projeto.

– Trisólis. – Considerou o rei. – E quanto ao muro vindo de lá? Suponho que mantenha contato com seu respectivo mestre de obras, correto?

– Sim, Vossa Mejestade, a equipe de Osmar mantém o mesmo ritmo que os meus homens; assim como em todas as outras obras e até mesmo em volta de Mesuran. Se me permite dizer, este projeto foi muito bem definido pelo senhor e por vosso conselho. Exceto por um detalhe. – O discurso de Blake minguara da euforia a uma gagueira temerosa.

Se todos já estavam pasmos com a coragem do velho construtor de conversar francamente com o rei, empertigaram-se em seus assentos com tamanha ousadia. Darvi Blake era o tipo de homem que se chamava chucro. Crescido em meio a obras e construções, não tinha estudos, não sabia ler e mal assinava o próprio nome. Porém, suas obras eram precisas, exatas, simétricas e seus cálculos impecáveis. Fora isto, o que poderia saber sobre estratégia de defesa?

– Ora, nobre companheiro – manifestara-se Gerard Thomp, mas logo calado com um aceno do rei que incentivava Blake, com o olhar, a continuar o raciocínio.

– Perdoe-me, Vossa Graça, não deveria ter falado além do que me foi perguntado.

– Não, por favor, eu insisto; gostaria de ouvir a sua opinião – diz Ughar ainda com a mão em diração a Gerard.

– Não há nada de errado com a construção, senhor. A divisão da obra é equilibrada e será concluída em tempo nunca visto neste continente. Uma obra sem igual. É só que… Subir muros às margens do lado de Condril? Não são nossas terras, sabe?

Não deve ter sido fácil para o velho Darvi. Ah, isso eu posso afirmar! Ser apenas um operário escrutinado por vorazes olhos indignados com a crítica que acabaram de receber – e imagino que a corte não deva ser muito tolerante com críticas – deve ter feito seu pescoço coçar, ainda mais com ajuda tão singela do General Gerard Thomp:

– Isso foi demais, homem. Como ousa questionar o projeto que impulsionará nosso reino à completa independência? Quem é você para duvidar das decisões do conselho de nosso senhor? Sabe que é este o trabalho que alimenta toda a sua família, que paga os estudos dos seus filhos e mantém sua esposa segura aqui na capital? – o general exaltou-se tentando conter o tom de voz, mas com os olhos quase saltados das órbitas e a veia do pescoço da espessura de uma zarabatana.

– Não se altere, por favor, caro general. O que nosso amigo diz é verdade. Todos nós negligenciamos a boa política quando iniciamos as obras do outro lado do rio, por menor que seja este trecho. – Demóstenes posicionara-se pela primeira vez desde que a reunião começara. Sua voz sempre serene acalmou aos poucos o atarracado Gerard.

Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 02/03)

Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 01/03)

CIDADE DE ARDIR, 3º ANO DE INDEPENDÊNCIA.

Passos. Imensas paredes de pedras minuciosamente encaixadas retumbavam o arrastar de pés apressados por toda a extensão do corredor, perturbando a tenra noite que aninhava em seu manto o descanso dos que o mereciam. Passos. Passos precisos.

Encharcado de drama, não? Peço desculpas, mas sinto dificuldade em conter minha pena – e até divirto-me – enquanto imagino o velho e incólume Demóstenes abandonar sua serenidade para se atracar em peleja contra tempo e espaço para vencer a vastidão entre o saguão do Palácio de Ardir e os cômodos reais. A caravana vinda de Portouro chegara com notícias e estas em nada agradariam ao homem.

A noite era fria e o velho trouxe consigo todo o gélido incômodo do exterior para dentro dos aposentos do rei. Abriu a porta com cautela para evitar o ranger das dobradiças, mas a manteve escancarada. Deslizou até as janelas e, uma por uma, ergueu as folhas inferiores para dar passagem à densa massa fria que logo se espalhou por todo o piso e, aos poucos, se apoderou do parco calor ambiente. Em sua sabedoria, Demóstenes acreditava que despertar o rei pelas causas inerentes ao natural seria a forma mais adequada de arrancá-lo de seu sono, ainda mais ao considerar que o repentino açoite do frio seria acompanhado de informações vindas de uma região com tamanha instabilidade política.

Ao mínimo indício de consciência, alertou:

Senhor, é chegada a hora das providências!

O homem começou a levantar-se, e nada mais era do que apenas um homem, pensou o velho. Não havia nada de majestoso, nada de realeza ou de nobreza. Com remelas esparramavam-se pelas pálpebras, o cabelo desgrenhado e movimento arrastados e letárgicos, ergueu-se da cama. Nada de esplêndido. Era homem como qualquer outro, exceto por ser rei do Reino independente de Mansedes. Enquanto empertigava-se lentamente como se todo o continente devesse esperar, Demóstenes trazia-lhe uma bacia de prata para a higiene do despertar. Com os pés, braços e rosto lavados, e trajado com finos tecidos trabalhados em fios de ouro, agora o régio ser erguera-se para o dia. Dirigia um olhar de respeito ao homem a sua frente, o mesmo olhar dirigido a um pai. O outro recebeu o olhar com uma mesura singela, mas em seus pensamentos, a pessoa vestida como rei ainda era homem. Homem comum!

Demóstenes, o primeiro de Ardir, chegara ao reino de Mansedes havia poucos anos, mesmo que, para Ughar Uhran, parecesse que ele já se fazia presente desde sua infância. Aparecera como um viajante às portas da capital, mas não como um maltrapilho qualquer, sujo e cansado das estradas. Surgira com pele clara de um banho perfumado e com o mesmo manto bem alinhado ao corpo. Apresentava uma proposta. Não. Uma salvação.

– Deixe-me a par – irrompeu Ughar de seus pensamentos enquanto voltavam pelo corredor de onde, pouco antes, Demóstenes viera. Andaram a passos apressados o que parecera horas: imaginem, leitores, qual rei gostaria de ser dragado de seu leito aquecido pelo corpo de sua senhora para resolver qualquer assunto que fosse.

No corredor, um brilho fosco pulsava oriundo do tremular das velas estáticas nos castiçais bem distribuídos ao longo do caminho. Repetia-se sempre a mesma sequência. Três castiçais, uma armadura bem polida. Três castiçais, um enorme escudo com o brasão da família. Três castiçais, uma armadura. Acredito que o rei tenha um tanto de respeito pelo Vossa Digníssima, pois se fosse por mim – e que as senhoras me perdoem – essas estátuas já teriam virado belas dançarinas seminuas (ou até mesmo nuas) há muito tempo.

Justo de sua parte, nobre autor” teria pensado o indecente leitor; mas não é para isto que cá estamos e, por respeito às senhoras com as quais já me desculpei, voltemos ao desenlace:

– Quanto a Vossa recente decisão – apressou-se Demóstenes em tom taciturno – temo informá-lo que já houve repercussões.

– Algo diferente do que esperávamos? – questionou sem demonstrar preocupação.

– Condril posicionou tropas em seu lado da margem do Rio dos Deuses.

Atravessaram o portal de pedra, recebidos pela fria brisa matinal da Mata Escura. O céu apresentava-se em cores líquidas e tons que se mesclavam acima de suas cabeças. Sublime. Os tons sombrios, como a própria floresta à esquerda, eram engolidos pelo suave avanço das cores leitosas vindas do leste reforçadas pelo mágico brilhar dos milhares de pontos luminosos da Costa dos Mil Faróis. Evento este que dera nome à cordilheira que se projetava em toda região norte do reino. O local transmitia uma sensação de paz que acalmava a alma, principalmente nos momentos que demarcavam a deslumbrante disputa entre o dia e a noite.

Eram o lugar e o momento ideais para reuniões estratégicas; todos os sentimentos acalmavam-se perante as bênçãos de Ardir. Outro sábio conselho soprado por Demóstenes aos ouvidos de Ughar.

Uma mesa foi posta no centro da grande varanda de pedra e, em volta dela, já estavam os três convivas à espera de seu Regente. Servidos à mesa: sucos, frutas, pão preto, queijos e vinhos. Todos intocados.

– Bom encontrá-los tão dispostos, companheiros – cumprimentou Ughar. – Por favor, sentem-se.

Sentaram-se.

Capítulo 01: Escolhas e consequências (Parte 01/03)

Prelúdio

E a tua história, quando será contada?

Muitos diriam que nunca. Mas peço, por favor, que não te sintas mal pela opinião de conservadores. Estes, que são apenas criaturas desejosas por aventuras fantásticas que não são capazes de protagonizar, vivem pelas façanhas de grandes personalidades do passado, ou até mesmo de seres fictícios que desbravam masmorras, enfrentam bestas colossais, se tornam grandes líderes, gravam seus nomes na eternidade do tempo. Mudam o mundo.

Mas e quando o mundo muda a pessoa, os anônimos reais, sonhadores, verdadeiros soldados do dia a dia que lutam pela sobrevivência dos elementos de sua família, não pela perpetuação de um nome? Heróis e heroínas são carregados pelas vozes de bardos, trovadores e menestréis. Tornam-se conhecidos. E quem conhece a batalha do aldeão, a peleja do cidadão?

Encontrei Khalik Proteus à beira da morte, entregue aos cuidados de uma pequenina que, muito provável, estava às vésperas de seu décimo aniversário. Deitados entre as raízes de uma antiga árvore, um fornecia calor ao corpo do outro. “Clarine” ele insistia em chamá-la. “Tessa” a pequena o corrigia.

Khalik e Tessa. Duas figuras reais. Desconhecidas do mundo.

Forneci abrigo em minha tenda, fogo, comida e roupas secas. Mais do que choque, a cena daquelas miseráveis almas me encantou. Como bardo, levo os batidos contos para as vilas que visito. Como humano, me apaixonei pelos mistérios das possíveis circunstâncias que os levaram àquele quadro lastimável.

A beleza da tragédia deveria ser contada por mim. Eu seria o arauto do comum. O responsável por elevar os plebeus à nobreza, por trazer nobres à sutileza da vida campestre. Por isso me foi dada a dádiva de encontrá-los, cuidar de seus ferimentos, conhecê-los. Ouvir suas histórias.

E nesta história, nenhum plebeu se tornará herói. Mas, para que se entenda a queda de uma alma, é preciso explicar, primeiro, a queda do mundo.

– Luniel Alof

Prelúdio